MAIORIA DOS POSTOS DE SAÚDE NÃO CONSEGUE ADOTAR PRONTUÁRIO ELETRÔNICO
18/10/2016
O Bom Dia fez uma blitz pelos postos de saúde. E descobriu que a dois meses de terminar o prazo obrigatório, 80% das unidades de saúde não conseguiram se livrar da papelada e adotar o prontuário eletrônico.
As informações dos pacientes se perdem e as filas se multiplicam sem uma rede interligada. Qual é a desculpa para tanta demora?
A principal é que falta dinheiro para comprar computador, para pagar a internet. Ou seja, falta o básico e o essencial para usar o prontuário eletrônico. Para os pacientes, essa demora significa mais filas, mais demora no atendimento.
É para funcionar assim. No computador, deve estar tudo que o paciente fez no SUS. E o registro do posto de saúde por exemplo, pode ser visto na UPA, no hospital.
O prontuário eletrônico é uma exigência do Ministério da Saúde. A rede pública do país todo vai ter até dezembro para se adaptar. E o governo disse que vai cortar os repasses de dinheiro dos estados que não mudarem o sistema. Esse prazo é para a informatização dos postos de saúde. Depois virão as mudanças nos ambulatórios e hospitais.
Em Brasília a informatização começou em 2008. Mas desde agosto a empresa contratada suspendeu a internet.
“Por questões de pagamento, houve atraso e tudo e ela começou a fazer o corte localizado desses serviços, tanto de internet, quanto de telefonia”, disse Wilson Coelho, coordenador de Tecnologia de Informação em Saúde.
No país só 24% das unidades de saúde estão usando o prontuário eletrônico. O Bom Dia Brasil foi ver como está isso na prática.
No estado de São Paulo, 378 cidades não têm o prontuário eletrônico. Isso dá quase 60% dos municípios. Em algumas unidades de saúde o programa até foi instalado, mas não está sendo usado.É o que acontece em um posto de saúde de Ribeirão Bonito.
“O sistema é muito complicado, exige muitas informações, tem que ter toda a documentação dos usuários. Até a data prevista que o Ministério está exigindo a gente vai estar implantando, sim, os prontuários eletrônicos”, afirmou a enfermeira Tatiana Simões.
Quem depende do SUS espera que o prontuário eletrônico acabe com as filas para conseguir uma consulta.
Em Maceió, capital de Alagoas, está funcionando, e a dona de casa Margarege da Silva diz que agilizou mesmo.
“Tinha que procurar, né, para pegar o papelzinho para poder vir, mas eu vim hoje e já fui atendida, tudo certo”, disse Margarege.
A Débora, de 6 aninhos, também ganhou um prontuário no computador, feito em 10 minutos. E o único papel foi o da receita. Mas a Secretaria não informou quanto da rede já está assim, no novo sistema.
Em Pernambuco está faltando muito ainda. Dos 184 municípios de Pernambuco, apenas 32 têm prontuário eletrônico. Em todo o estado, quase 90% das unidades de saúde, como uma de Olinda, na Região Metropolitana do Recife, ainda fazem o registro médico com caneta e papel ou em um programa de computador que não atende às exigências do Ministério da Saúde.
O autônomo Damião Ferreira contou ao Bom Dia Brasil que já teve que repetir consulta quando perderam um encaminhamento médico dele.
“Perderam o documento e a gente ficou ao léu, sem poder se consultar, teve que fazer novas consultas, nova marcação para poder a gente se consultar com o médico, começou tudo do zero”, queixou-se Damião.
É enorme a quantidade de papel nas unidades básicas em Salvador. A Secretaria Municipal de Saúde calcula que pelo menos 1,8 milhão de prontuários como o que é mostrado na reportagem estejam nos arquivos dos postos.
Transferir toda a quantidade de informações para um sistema informatizado é um trabalho que levaria muito tempo. A Secretaria ainda nem fez essa estimativa.
“A gente está se organizando para poder implantar nos próximos dois anos", disse Luciana Peixoto, diretora da Secretaria Municipal de Saúde.
O Ministério da Saúde diz que com a digitalização dos dados do paciente vai dar para fazer economia.
“Teremos 20% de economia quando todo o sistema estiver integrado, atenção básica, ambulatorial e hospitalar. Isso representa R$ 15 bilhões por ano”, afirmou o ministro da Saúde, Ricardo Barros.
Para o diretor do Hospital Regional da Asa Norte, José Adorno, não é luxo, é necessidade, principalmente em redes como a de Brasília, onde falta tudo: médico, remédio, leito.
“Exatamente para deixar de faltar, para diminuir a fila, para gerenciar melhor o nosso recurso, material escasso, mas se ele for melhor gerenciado nós podemos utilizá-lo de forma mais racional”, disse o médico.
Uma coisa é certa: se sair do papel, adeus garrancho de médico.
“Quando era na caneta, não dava para entender, agora dá para entender”, disse a dona de casa Ana Paula Gomes.
O prazo final está chegando e o Ministério da Saúde falou que os municípios que não conseguirem instalar o prontuário eletrônico até o dia 10 de dezembro terão que apresentar justificativas e um plano de trabalho ao Ministério para que a verba para programas como Saúde da Família e Brasil Sorridente não sejam suspensas.
Nota de esclarecimento da Prefeitura de Jequiá da Praia, Alagoas.
A Prefeitura Municipal de Jequiá da Praia informa que, ao contrário do que foi mostrado no telejornal Bom dia Brasil, da Rede Globo, numa reportagem sobre o uso do Prontuário Eletrônico, as imagens veiculadas não foram gravadas em Maceió e sim no município de Jequiá da Praia, na última quinta-feira (13). A matéria foi gravada na Unidade Básica de Saúde Vereador Augusto Celestino dos Santos.
Jequiá da Praia iniciou a implantação do software, obrigatório pelo Ministério da Saúde, em julho de 2015. Hoje, quatro das cinco Unidades Básicas de Saúde do município já possuem prontuário eletrônico e, até o final do ano, as cinco já estarão com o sistema em funcionamento, totalizando 100% de cobertura.
A Prefeitura de Jequiá da Praia reitera que as imagens foram gravadas na Unidade Básica de Saúde Vereador Augusto Celestino dos Santos e não em Maceió.
Fonte: G1